As Cartas de problemática
Em finais de 1950 ou princípios de 1951 e até final de 1951-1952, António Sérgio manteve, aos sábados de manhã, com alguma regularidade, na sua casa, na Lapa, no nº 4 da Travessa do Moinho de Vento, conversas com um grupo de jovens amigos, alunas e alunos da Faculdade de Ciências e colaboradores da respetiva Associação de Estudantes. O ponto de partida dessas conversas terá sido o interesse manifestado por esse grupo de estudantes, “que queria perceber Platão”.
Em julho de 1952, António Sérgio inicia a publicação, através da Editorial Inquérito, em formato de pequenas brochuras, das "Cartas de problemática, dirigidas a um grupo de jovens amigos, alunas e alunos da Faculdade de Ciências”.
O certo, no entanto, é que Sérgio não “lhes havia anunciado a sua publicação. Os estudantes não reconheciam os temas tratados. Não encontravam qualquer eco das conversas havidas.” (in “As Cartas de Problemática” de António Sérgio e os Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa por Olga Pombo e Manuel Beirão dos Reis, Fim de Século Edições, abril de 2012).
Cartas de problemática n.º 4, de Outubro de 1952
Sobre Abel Salazar, que apelidou de "certo notável biologista a que se reconhecia mérito", escreveu: Ignorava as matemáticas; fiou-se, todavia, na possibili¬dade de tratar «filosoficamente» o assunto. Copiou alguns livros de vulgarização da doutrina, destinados à iniciação de leitores curiosos, de diferentes níveis de cultura científica: uns na matemática inteiramente ignaros, outros já besuntados da sua algebrazinha e do cálculo. Como é de prever, saiu uma salada que não elucidava a ninguém, mas que ele ia salpicando de certas «filosofias» literárias, com frases como a seguinte: «a teoria da relatividade é a beleza da Vénus de Milo, projectada num sistema de equações».
Sobre Bento de Jesus Caraça, a que chamou "um relevante professor de ciência, varão a vários respeitos muito distinto e admirável", Sérgio afirmava que "em não poucos ensejos lhe sugeri cautela, insinuando-lhe em suma que fizesse filosofia, mas com a mentalidade científica que na ciência usava", sugerindo-lhe "cautela, insinuando-lhe em suma que fizesse filosofia, mas com a mentalidade científica que na ciência usava". E passou depois aos Conceitos fundamentais de matemática (a que apelidou um bem formoso livro), acusando Caraça de ter querido ser também filosófico - por um lado, o de pretender encaixar toda a evolução da ciência no artificioso esquema da «lógica» hegeliana [referindo-se deste modo ao marxismo] e, por outro lado, introduziu-lhe frases de filosofia literária que desdizem do carácter científico da obra.
Comentário de Manuel Mendes
Foi com natural indignação que o escritor Manuel Mendes reagiu à insidiosa reinvestida de António Sérgio no ataque a Bento de Jesus Caraça (e a Abel Salazar), agora quando qualquer deles já tinha morrido - diz-lhe, aliás, na carta que se publica, "não é com mortos que se discute".
Com data de 10-12-1952, Manuel Mendes é contundente com Sérgio, atribuindo-lhe "mentalidade pesporrente, inteiramente dominada por uma vaidade pedantesca e indomável".