Sérgio e Caraça conviviam há um bom par de anos, por certo que já teriam confrontado opiniões, não são dois desconhecidos. E, porque uma polémica é um debate entre ideias diferentes, uma colisão de argumentações distintas com o objectivo de apurar um vencedor ou, mais propriamente, de, perante a opinião pública, convencer o opositor, os contendores desenham a sua estratégia de embate tendo em conta muito do que já conhecem do adversário. Daí que, na segunda réplica, Carta a António Sérgio – crítico, Caraça aluda claramente aos dois Sérgios que conhece, o crítico e o polemicante, o primeiro é o apóstolo da razão e da coerência argumentativa, o segundo é o ilusionista da palavra e o trauliteiro da pena.
Há que separar as águas entre estas duas personagens e, num curioso artifício, Caraça convoca o Sérgio-crítico e dispõe-se a encerrar a discussão com o Sérgio-polemicante, propondo ao primeiro que dê a ler ao segundo «um livro de Álgebra Moderna»[1] para tudo se tornar «claro e inequívoco»[2]. E, «agora, afastando o intruso que se sentou à sua mesa de trabalho»[3], retoma a argumentação com o Sérgio-crítico ─ isto é, discordância da afirmação que «o primado do número significa repetir Platão» ─ recorrendo à análise histórica do problema. E conclui: «é o meu amigo quem, na sua idolatria por Platão, o priva, no fundo, daquele papel progressivo que teve no seu tempo quanto ao esclarecimento dos fundamentos da Geometria»[4].
Sobre a «concepção platónica» do conhecimento, Caraça conclui que «a Ciência Moderna constrói um mundo teórico em devir, um mundo de verdades relativas, porque correlacionadas a um dado estado do processo histórico, um mundo sem Causa nem Fim»[5], tendo antes sustentado que «Platão procurou no mundo das Formas um mundo da invariabilidade lógica, um mundo do absoluto, da imutabilidade, subordinado ao misticismo obscuro da Forma e do Bem»[6]. E, ao abrir a análise a uma perspectiva mais lata, «para apreciar Platão, começo por integrá-lo no seu ambiente histórico»[7]: «A sua inteligência poderosa conseguiu realizar um sistema de grande unidade interior […] construindo uma superestrutura idealista, deu satisfação às suas aspirações de homem-de-classe»[8], acrescentando ainda, «toda a sua obra respira o desdém aristocrático pelos sentidos e pelas artes manuais que lhes estão ligadas»[9].
Relembra ainda, na marcha do progresso dos conhecimentos, que «em ciência a verdade de hoje é o erro de amanhã, mas pode acrescentar-se que por vezes volta a ser, sob uma forma mais larga a verdade de depois de amanhã»[10], exemplifica com o caso de «a história das teorias da luz». E, ao terminar, reconhece que «o não convenço com as minhas razões e o não trago a aceitar os meus pontos de vista», pois Caraça sabia que as suas visões do Mundo eram diferentes.
[1] (Caraça, 1946: 128).
[2] (Coelho, 1990: 51).
[3] (Caraça, 1946: 129).
[4] (Ibid.: 132)
[5] (Ibid.: 140)
[6] (Ibid.: 139)
[7] (Ibid.: 138)
[8] (Ibid.)
[9] (Ibid.)
[10] (Ibid.: 139)