Sérgio retorque com a prosa exposta em Réplica sem severidade a um severo amigo, numa clara alusão à reprimenda passada por Caraça que o acusara de, na linguagem matemática, recorrer a expressões confusas. Na réplica aceita o repto proposto pelos seis pontos de Caraça e responde a cada um deles. Sérgio procura deslocar o campo da discussão das questões estritas da matemática platónica para «o espírito matemático da Filosofia de Platão»[1] e insiste na discussão das ideias próprias deste: «se Caraça quiser ter a bondade de reler [...] [a] República (que são da segunda fase da obra platónica) e depois o diálogo do Sofista [...], e o fizer de alma livre, sem preconceito algum, — poderá ainda pensar, como pensa agora, que é minha a interpretação que de Platão proponho, mas tenho a esperança de que concluirá também que não é lícito considerá-la como arbitrária, e que ela se justifica perante os textos »[2]. Passa-se para o domínio da interpretação das ideias do filósofo, refutando o anti platonismo de Caraça e, assumindo como corolário do seu raciocínio, que este não deveria ser tão severo no seu juízo.
Nos pontos seguintes, dilatando a extensão da sua argumentação, Sérgio procura responder a todos os argumentos de Caraça, reforçando a ideia de independência da criação científica face ao mundo sensível chamando à colação palavras de Einstein[3] — «A ciência não é apenas uma colecção de leis, um catálogo de factos não-relacionados [...] É uma criação do espírito humano com ideias e conceitos livremente inventados. As teorias físicas experimentam traçar una quadro da realidade e estabelecer liames com o nosso mundo de impressões. Assim, a única justificativa para as nossas estruturas mentais está em que as nossas teorias formem esses elos»[4] — omitindo a frase grafada em itálico[5]. Uma omissão que mostra que Einstein «não recusa a sua ligação às impressões sensíveis», isto é, Sérgio retirou a Einstein a interacção entre teoria e experiência, o que não corresponde à citação completa.
[1] (Coelho, 1990: 36).
[2] (Sérgio, 1946: 45).
[3] (Ibid.: 49), no original o texto está em francês.
[4] (Einstein, sd: 218).
[5] (Reis, 2006: 140).